quarta-feira, 8 de abril de 2009

A natureza e a missão de Deus


Vivemos num mundo científico no qual estamos sempre procurando respostas baseadas na relação de "causa e efeito". Desta forma, não são poucos os cristãos que olham para o primeiro capítulo de Gênesis tentando comprovar cientificamente que o mundo foi criado por Deus em resposta a tantas idéias em relação ao início da vida, tais como o surgimento do mundo através de uma explosão ou mesmo através do desenvolvimento das espécies.



Seria o objetivo central do relato de Gênesis a refutação da argumentação científica? Visava o escritor original responder ao homem do Séc. XX? O que pretendia o autor com seu relato? Se observarmos atentamente o primeiro capítulo de Gênesis e entendermos para quem foi escrito inicialmente, perceberemos a missão de Deus naquelas palavras, pois o relato da criação confronta toda visão de mundo da época declarando que apenas um Deus criou todas as coisas e, portanto, é o Rei do universo.

Assim, ao declarar no verso 2 que o Espírito de Deus pairava por sobre as águas e no verso 6 que Deus fez separação entre águas e águas o autor coloca Yam - Águas (deus babilônico) como sujeito ao Deus Criador mesmo antes da fundação do mundo.

Da mesma forma, ao citar no verso 3 que disse Deus: Haja luz; e houve luz, sendo que o Shemesh - Sol (deus egípcio), lua e estrelas só viriam a ser criados no quarto dia (1:14-19), o autor revela a insignificância destes astros adorados pelos povos vizinhos.

E ainda, ao mencionar a criação da porção seca a qual chamou Deus Terra (1:9-10) e a ordem de Deus para que esta fosse produtiva e sua conseqüente obediência (1:11-12), o autor revela que a fertilidade não é produzida por Baal (deus cananeu), mas pelo próprio Deus criador de todas as coisas.


Entendido dentro de seu contexto original, Gênesis 1 ganha uma profunda força missiológica, pois entendemos que o objetivo primeiro do autor era afirmar que Deus é o Criador de tudo e de todos, portanto, o único Deus digno de ser adorado. Desta forma, o primeiro capítulo de Gênesis representa um verdadeiro desmascarar dos falsos deuses como Yam (Águas), Baal (Fertilidade da Terra), Shemesh (Sol), entre outros, reverenciados pelos povos contemporâneos de Israel.

Na história do Povo de Israel podemos ver por inúmeras vezes o embate entre Deus contra os deuses dos povos vizinhos. Ao tornar as águas do rio Nilo em sangue, Deus mostrou claramente ser maior que o deus babilônico yam “águas” (Gn 1.2, 6 e 10; Ex 7)

Ao determinar 3 anos de seca no reinado do rei Acabe (adorador de baal), Deus deixou claro que a fertilidade da terra não é produzida por baal, mas pelo próprio Deus (Gn 1.1 e 11; 1 Rs 17.1 e 18.1)

Ao deter o sol na guerra contra os amorreus Deus não deixou dúvidas quanto ao seu poder sobre o deus egípcio shemesh “sol” (Gn 1.16; Js 10.14)

Diante de tudo isso, o alerta de Deus para seu povo era: “Guarda-te não levantes os olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejas seduzido a inclinar-te perante eles e dês culto àqueles, coisas que o SENHOR, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus.” Dt 4:19


Restaurar o ser humano – Sendo Deus o criador de tudo e de todos, seu plano redentor na história da humanidade se torna uma ação de direito e não uma agressão a um mundo existente. O projeto de redenção é iniciativa do próprio criador em resgatar sua criação e, em especial, o ser humano criado por Ele, segundo Sua própria imagem e semelhança, para viver em intima relação com Ele. “Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes?” (Is 45.9)

Reinar sobre as nações – Sendo Deus o Criador de tudo e de todos, não quer ser reconhecido apenas como Rei de Israel ou da Igreja, mas sim como Rei das nações e Senhor de todas as coisas criadas. Em Seu eterno e soberano propósito, Deus planejou todas as coisas para que na consumação da história Sua glória encha todas as coisas e toda língua confesse ser Ele o Senhor. (Fp 2.11)

Sendo Deus o Criador de tudo e de todos, o ponto de partida para a evangelização não é a negação dos deuses e crenças que envolvem a vida das pessoas, mas a revelação daquele que é soberano sobre tudo e todos.

8 marcas de qualidade (Parte 4)


Estamos estudando as 8 marcas de qualidade que estão presentes nas Igrejas que estão crescendo, mas ausentes nas Igrejas que estão morrendo apontados pela pesquisa realizada pelo IPI nas mais de 1000 Igrejas, nos 32 países nos cinco continentes.

Já apresentamos seis marcas de qualidade: 1) Liderança capacitadora, 2) Ministérios orientados pelos dons, 3) Espiritualidade contagiante, 4) Estruturas funcionais, 5) Culto inspirador e 6) Grupos pequenos. Hoje veremos as duas últimas marcas de desenvolvimento natural da Igreja e como temos feito até aqui analisaremos se os mesmos estão em conexão com a Palavra de Deus.


Existem duas idéias sobre a evangelização que hoje dominam a cabeça de muitas pessoas nas Igrejas. A primeira idéia é aquela que afirma que “grandes eventos evangelísticos” onde os não cristãos ouvem o Evangelho de Cristo e decidem se comprometer com ele é um princípio válido para o crescimento da Igreja. A segunda idéia é afirmar que cada cristão é um evangelista e como tal deve evangelizar todos os seus amigos e conhecidos.

Surpreendentemente, o Instituto de Pesquisa Internacional sobre o DNI constatou que 70% das Igrejas que crescem não desenvolvem “mega eventos evangelísticos” como meio de crescimento e nem contam com todos os seus membros praticando o evangelismo pessoal. Mas então, o que fazem essas Igrejas quanto à evangelização?

Primeiro vamos avaliar as razões porque as Igrejas que crescem não defendem tais idéias de evangelização:

1) Apesar dos “grandes eventos evangelísticos” atraírem muita gente, e dessa forma poder alcançar um bom número de convertidos, boa parte desse público acaba sendo de cristãos vindos de diversas Igrejas. Outro agravante é que quase nunca se encontra os novos convertidos freqüentando os cultos meses depois.

2) Quanto ao fato de que todos os membros da Igreja precisam fazer evangelismo pessoal o que se percebe é que, como a maioria dos cristãos (cerca de 90%) não tem o dom de evangelista, tal exigência acaba trazendo frustrações e desânimo a todos e uma forte sensação de fracasso tanto na liderança como nos membros, visto que por mais que se dedicam não conseguem desenvolver o trabalho proposto.

Agora vejamos o que as Igrejas que crescem estão fazendo:

1) Estimulam todos os membros a usarem seus dons para servir àqueles amigos não cristãos e engajar-se para que essas pessoas entrem em contato com a Igreja e ouçam o evangelho.

2) Treinam àqueles membros que tem o dom de evangelista para a prática do evangelismo pessoal. Normalmente estas pessoas trabalham na recepção das Igrejas, nos grupos pequenos e nos pequenos eventos desenvolvidos para os amigos não cristãos de todos os membros.

3) Desenvolve grupos pequenos onde se desenvolve a amizade, a comunhão e o cuidado. Tais grupos têm o objetivo de crescer e se multiplicar através dos relacionamentos.

4) Desenvolve “pequenos eventos” como cultos especiais, acampamentos, retiros, cursos de qualificação profissional, etc., de acordo com as necessidades compartilhadas pelos amigos dos membros. Em tais eventos o evangelho é apresentado de forma dinâmica e criativa como a melhor solução de Deus para todas as necessidades apresentadas.


O foco desta marca é apresentar as boas novas do Evangelho de acordo com as necessidades apresentadas pelos nossos amigos. Quando vamos pescar, nós não colocamos pizza como isca porque gostamos de pizza. Na verdade, a isca é colocada de acordo com o gosto do peixe que pretendemos pescar. Na evangelização acontece o mesmo. Devemos observar as necessidades de nossos amigos e usá-las como “isca” para apresentarmos o Evangelho. Jesus fez isso muito bem, vejamos:

1) Ele chama seus discípulos que estavam pescando a segui-lo prometendo-lhes fazer deles pescadores de homens. (Mateus 4.18-22)

2) Ele assemelha o reino dos céus a agricultura ao falar para um povo de região agrícola. (Mateus 13)

3) Ele ofereceu água viva para a mulher samaritana que estava junto ao Poço de Jacó tirando água para suas necessidades. (João 4)

4) Ele ofereceu cura a um paralítico que aguardava no “tanque de Betesda” a cura para sua paralisia. (João 5).

5) Ele ofereceu pão do céu, para a multidão que estava faminta. (João 6)

6) Ele oferece perdão para a mulher adúltera quando ela estava prestes a ser apedrejada. (João 8)

7) Ele se apresenta como o bom pastor usando a figura do pastor de ovelhas tão conhecida entre seus ouvintes. (João 10)

Deus certamente usa dificuldades como oportunidades de comunicar as boas novas. “Ao aflito livra por meio da sua aflição, e pela opressão lhe abre os ouvidos” Jó 36.15


O IPI comprovou que existe uma relação altíssima entre a capacidade de amar de uma Igreja e o seu potencial de crescimento. Cerca de 88% dos membros das Igrejas que crescem afirmaram que em suas Igrejas os relacionamentos são marcados pelo amor fraternal.

Para medir o nível com que o amor é vivido na Igreja foi levado em consideração algumas questões: Quanto tempo os membros da Igreja gastam com cristãos fora da atividade da Igreja? Com que freqüência eles se convidam para uma refeição ou para um cafezinho? Quanto eles elogiam uns aos outros na Igreja? Em que medida os líderes conhecem as necessidades de seus liderados? Quanto se ri na Igreja? Com base em questões como estas, o IPI concluiu que atrás destas práticas existem princípios fundamentais de crescimento da Igreja.

Amor de verdade dá à Igreja um brilho, produzido por Deus, muito maior do que programas evangelísticos, pois nestes a ênfase recai exclusivamente em modos verbais de transmissão. As pessoas sem Deus não precisam de discursos sobre amor; elas querem experimentar o amor cristão na prática do dia a dia. É interessante notar que enquanto que nas Igrejas pequenas que estão morrendo a comunhão (Koinonia) é deturpada (vira “koinonite”) por eu me tornar o centro das atenções e só querer ser servido, e nunca servir, nas Igrejas grandes, a tendência de apagar o amor fraternal é também um alto risco porque elas tendem a despersonalizar os membros e vê-los apenas como um número, por isso, ambas devem se preocupar em se multiplicar e não somente em crescer.


É comum nas Igrejas que estão morrendo encontrar pessoas que defendem que a prática de determinadas atividades são indispensáveis para a manutenção e crescimento da Igreja. O que tais pessoas não percebem é que ninguém fica numa Igreja se não tiver amigos verdadeiros nela. Todos nós temos uma necessidade grande de amar e de sermos amados. Até por isso, o próprio Jesus quando foi questionado sobe qual seria a maior tarefa, ou obrigação de um cristão fiel, ele não deixou dúvidas: “Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.” Mateus 22:37-40.

Em diversos outros textos encontramos esta marca como algo indispensável para uma Igreja que leva a sério a sua missão, Vejamos:

João 15:12 O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei.

Romanos 13:8 A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei.

1 Ts 4:9 No tocante ao amor fraternal, não há necessidade de que eu vos escreva, porquanto vós mesmos estais por Deus instruídos que deveis amar-vos uns aos outros;

1 João 3:23 Ora, o seu mandamento é este: que creiamos em o nome de seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o mandamento que nos ordenou.
__________

segunda-feira, 6 de abril de 2009

8 marcas de qualidade (Parte 3)


Estamos estudando as 8 marcas de qualidade que estão presentes nas Igrejas que estão crescendo, mas ausentes nas Igrejas que estão morrendo apontados pela pesquisa realizada pelo IPI nas mais de 1000 Igrejas, nos 32 países nos cinco continentes.

Já apresentamos as quatro primeiras marcas: 1) Liderança capacitadora, 2) Ministérios orientados pelos dons, 3) Espiritualidade Contagiante e 4) Estruturas funcionais. Hoje veremos a quinta e sexta marca de desenvolvimento natural da Igreja e como temos feito até aqui analisaremos se as mesmas estão em conexão com a Palavra de Deus.


Qual será a diferença identificada nos cultos das Igrejas que crescem dos cultos das Igrejas que estão morrendo? Em outras palavras, que aspectos a Igreja que quer se desenvolver de maneira saudável deve levar em consideração quanto ao culto? Sobre esse assunto, muitos cristãos pensam que precisam adotar “modelos” de cultos de outras Igrejas, porque vêem neles um “princípio” de crescimento. Há também àqueles que acreditam que o culto voltado essencialmente para não cristãos seja um “princípio” de crescimento de Igreja. Mas, nessa discussão, quem está com a razão?

A pesquisa do IPI sobre o Desenvolvimento Natural da Igreja constatou que o culto voltado somente para não cristãos não é um princípio de crescimento da Igreja. Isso não quer dizer que os cultos para os visitantes não sejam uma ótima forma de evangelização. Até merece ser imitada. O que isso quer dizer é que por trás de um culto evangelístico não existe um “princípio” de crescimento de Igreja. Podemos direcionar os nossos cultos totalmente para cristãos, ou totalmente para não cristãos, podemos realizá-los na língua de “Canaã” ou em língua “secular”, podemos celebrá-los de forma litúrgica ou de forma livre, mas, tudo isso não é essencial para o desenvolvimento da Igreja. Decisivo é outro fator.

80% das pessoas que freqüentam as Igrejas que crescem afirmam que o culto é para elas uma experiência inspiradora. Aqui está uma marca de qualidade vista em todas as Igrejas que crescem. Será que a participação do culto é uma “experiência inspiradora” para quem dele participa? Com “inspiradora” nos referimos a inspiração que vem do Espírito de Deus. É óbvio que o Espírito Santo, quando age (e não só se diz que ele age), produz conseqüências evidentes sobre a organização do culto e sobre o clima perceptível dos participantes do culto. A conclusão dos participantes em cultos assim é que ele, o culto, foi “gostoso”! Estes cultos “por si mesmo” atraem as pessoas.

Diferentemente do culto inspirador, nas Igrejas que estão morrendo as pessoas encaram o culto como sendo uma obrigação cristã ou um favor ao pastor ou a Deus. Às vezes à esta idéia se acrescenta a suposição de que Deus abençoará a fidelidade e principalmente ao “sacrifício” de se participar de um culto que agrade a Deus e mais ninguém. Por esta razão, tais Igrejas não se preocupam com um templo bem arrumado, um ministério de recepção atuante, um culto moderado que concilia uma seqüência das partes do culto que tenha sentido com um ambiente livre, alegre e acolhedor.


Em se falando do culto, o próprio Jesus já nos advertia que o mesmo deve ser prestado apenas para Deus (Lucas 4.8). Nesse aspecto, é óbvio que não devemos buscar realizar um culto que não tenha em sua base a adoração exclusiva a Deus. Exatamente por isso, a Bíblia nos ensina que devemos realizar o culto buscando oferecer o que temos de melhor, como fez Davi ao organizar o culto de sua época, selecionou duzentos e oitenta e oito músicos, todos eles instruídos no canto do Senhor e mestres na música (1 Crônicas 25.7). Davi também colocou Quenanias como chefe dos levitas músicos, para ser aquele que ministraria os cânticos de louvor porque era perito nisso (1 Crônicas 15.22). Como podemos observar, Davi tomou o cuidado de oferecer culto a Deus com a melhor qualidade disponível.

Mas a pergunta que devemos fazer é: Um culto oferecido a Deus, com a melhor qualidade que podemos produzir, será um culto desagradável aos seus participantes? É óbvio que não. Na verdade, um culto assim nos inspirará tanto que não nos sobrará outra expressão para descrevê-lo como sendo um culto “gostoso”. Tanto é verdade, que no Salmo 42 os filhos de Corá, presos em uma nação estrangeira por causa da guerra, relatam aquilo que mais sentiam falta. Ouçamos o que dizem: “As minhas lágrimas têm sido o meu alimento dia e noite, enquanto me dizem continuamente: O teu Deus, onde está? Lembro-me destas coisas e dentro de mim se me derrama a alma, de como passava eu com a multidão de povo e os guiava em procissão à Casa de Deus, entre gritos de alegria e louvor, multidão em festa. Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu.” (Salmo 42.3-5)


A sexta marca de qualidade presente nas Igrejas que crescem, apontada pela pesquisa do IPI, é a presença de grupos de pequenos que se multiplicam. 78% das Igrejas que crescem há o estímulo consciente para que os grupos pequenos se multipliquem através da divisão. O fator decisivo para um grupo pequeno crescer e se multiplicar é que nele não só se estudam textos bíblicos, mas as verdades bíblicas são constantemente relacionadas a fatos concretos da vida diária dos participantes. Os participantes desses grupos têm a possibilidade de levar à comunhão do grupo questões que realmente mexem com eles no dia a dia, o que é impossível de acontecer num culto público.

Somente num grupo pequeno a pessoa, crente ou não, encontrará um ambiente acolhedor o suficiente para compartilhar sua vida, lutas e desafios. No ambiente do pequeno grupo a amizade é solidificada e isso contribui de maneira decisiva para o crescimento da Igreja visto que ninguém fica numa Igreja onde não tem amigos nela. Outro aspecto positivo encontrado nos grupos pequenos é que neles, cada participante tem a oportunidade de servir uns aos outros de acordo com seus dons. Ou seja, no grupo pequeno a pessoa pode ter sua maior necessidade assistida, a necessidade de amar e de ser amada em todos os momentos de sua vida de maneira prática.

Estes grupos precisam ser essencialmente pequenos porque grupos grandes, além de não crescerem mais, obstruem a comunhão tão presente nos grupos pequenos. Por isso, tais grupos estão em constante multiplicação. A multiplicação planejada desses grupos pequenos é facilitada pelo fato deles produzirem constantemente novos líderes. No contexto dos grupos pequenos acontece aquilo que está por trás do conceito “discipulado”: transferência de vida em vez do estudo de conceitos abstratos.


É interessante observar que a Bíblia não diz que deveríamos desenvolver a missão dada por Jesus à Igreja através das reuniões nos templos ou em grupos pequenos. Todavia, a missão de “ir e fazer discípulos ensinando a guardar todas as coisas que vos tenho ensinado” dificilmente será possível realizá-la através de encontros onde haja uma grande concentração de pessoas. É fato que em reuniões com um número grande de pessoas, conseguimos passar conceitos, ensinos, estímulos, mas jamais poderemos discipular, no sentido colocado anteriormente.

Mas, como é que a Igreja Primitiva desenvolveu de maneira eficiente a missão dada por Jesus? Olhando para textos como Atos 2.46; 5.42; 8.3 e 12.12, podemos perceber que apesar da Igreja crescer de maneira extraordinária, cerca de 8 mil pessoas em dois discursos de Pedro (Atos 2.41 e 4.4), a estratégia de se reunirem em pequenos grupos nos lares foi o meio de tornar o discipulado possível.

Por mais importante que seja o culto público, ele não tem como manter uma Igreja saudável sem o trabalho de discipulado desenvolvido em grupos pequenos. A necessidade de não ser visto apenas como um número numa Igreja grande como a Igreja Primitiva, de ser ouvido e de receber cuidado individual, de desenvolver amizade e de compartilhar minha vida, não podem ser supridas em reuniões públicas, mas somente em grupos pequenos, quer se reúnam em casas, salas de um shopping, debaixo de uma árvore ou numa chácara.
__________

Identidade


O tema dessa mensagem foi inspirado no texto de Mateus 5. 14-16 que diz que nós somos a luz do mundo e que por isso devemos brilhar diante dos homens para que eles glorifiquem a Deus. Pensando nessa passagem, tenho me perguntado se de fato nós, como filhos de Deus, temos iluminado com intensidade neste mundo escuro. Porque isso é o que Deus deseja, pessoas comprometidas com ele, que iluminem nesta terra escura, que andem na luz e sejam suas testemunhas.

Tendo isso em mente, olharemos para Jesus, que de maneira perfeita, nos mostrou através de sua identidade, ministério e vida o que significa ser uma luz a brilhar em meio a uma sociedade corrompida. Buscaremos nele respostas para perguntas do tipo: Como devemos viver em um mundo tão atolado no pecado? Como podemos nos destacar positivamente na sociedade em que vivemos? Como brilhar em meio a tanta gente que já não sabe sequer quem é Deus?

Nossos amigos precisam de pessoas que brilhem assim. Gente que se destaca porque é Deus o Senhor de suas vidas. Homens e mulheres atraentes com uma vida plena que despertem a curiosidade e o desejo de seus amigos a conhecerem a Deus. Gente que não se satisfaz em construir seu próprio mundinho, mas que valoriza mais o relacionamento íntimo com Deus do que a corrida desenfreada pelo dinheiro e o prazer. Pessoas que influenciadas pelo Espírito de Deus estão se tornando a cada dia, mais parecidas com Jesus. Gente que nasceu para brilhar.



Olhando para Jesus existe algo que nos salta aos olhos que certamente o capacitou a brilhar intensamente, trata-se de sua identidade. Mesmo antes de nascer como homem, somos informados a respeito da identidade de Jesus. Ao ser comunicada por um anjo que seria a mãe de Jesus, Maria ouviu que o menino “será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1.32). Mais tarde, no batismo de Jesus ouve-se a voz de Deus dizendo “Tu és o meu Filho amado, em quem tenho prazer”. (Lc 3.22)

Todavia, se os psicólogos de nossa época fizessem uma análise dos primeiros anos de vida de Jesus, certamente eles afirmariam que Jesus seria uma pessoa com sérios problemas. Posso até ouvi-los dizendo: “O início de vida do paciente foi complicado. A gravidez foi inesperada para os pais, o parto ocorreu sob circunstâncias adversas. Logo em seguida os pais tiveram de fugir por estarem sob ameaça de morte. Nos primeiros anos viveram como fugitivos no Egito. Todas essas evidências revelam que ele terá uma personalidade insegura e violenta”.

Mas então, o que aconteceu com ele? Exatamente o contrário! Quando Jesus viveu neste mundo, ele foi um homem como os outros do seu tempo. Ele nasceu judeu, falou a língua de seu povo, se vestiu, comeu como eles e conheceu seus sentimentos. Entre os seus contemporâneos, o homem Jesus viveu uma vida que apontava para a sua origem real. Era santo e ao mesmo tempo simpático, sincero e confiável, verdadeiro e misericordioso. Era uma pessoa atraente que refletia a glória de Deus e irradiava sua verdade e seu amor surpreendendo as pessoas por onde passava.

Jesus certamente não era uma unanimidade entre os seus contemporâneos. Em um determinado momento ele foi recebido como um verdadeiro rei, montando um jumentinho e sendo aclamado “Hosanas, bendito o que vem em nome do Senhor”. Mas, uma semana depois a mesma multidão gritava a seu respeito “crucifica-o, crucifica-o”. Como pode alguém assim ter uma saúde emocional, física ou mesmo espiritual admirável? Simples! Jesus não se deixou abalar com tais experiências porque ele descansava naquilo que ele é diante de Deus, ou seja, sua identidade. Sua convicção de ser ele, o verdadeiro Filho de Deus, o tornou inabalável.

Na cruz alguns zombavam dele dizendo: “Confiou em Deus; pois venha livrá-lo agora, se, de fato, lhe quer bem; porque disse: Sou Filho de Deus.” (Mt 27.43) e diante disso ele não se deixou esmorecer. O que é que aconteceu em seguida? Bem, o chefe da guarda romana que testemunhou a afronta, ao ver as evidências por si mesmo afirmou: “Verdadeiramente este era Filho de Deus”. Aqui está um homem que não depende de elogios humanos ou homenagens para reafirmar a sua importância. Sua consciência de ser o Filho de Deus é o suficiente para se sentir aceito e amado pelo Pai. Suas raízes vão muito além de sua vida humana, atravessa a eternidade e alcança o próprio Deus.



Quem edifica sua identidade e segurança sobre o fato de ter um cargo na igreja, empresa ou sociedade que lhe dá destaque, ou por ser pai ou mãe, ou de ter subido na escala social, perde a si próprio no momento em que esse papel mudar ou quando alguém assumir seu papel. Quem edifica sua identidade sobre o sucesso nos negócios, será pobre quando esse sucesso terminar a certa altura. Quem pensa ser alguém por causa da aparência pessoal, terá sérias dificuldades quando a velhice chegar. Todas essas coisas são relativas e instáveis. Nossa identidade encontra-se no mais íntimo do nosso ser, bem mais profundo do que nossos títulos, funções, carreiras e bens possam alcançar.

Talvez você tenha sido rejeitado no ventre de sua mãe, ou exposto a vexame, ou ainda sua auto-estima esteja constantemente atacada por sentimento de inferioridade. Tem a sensação de estar sobrando. No entanto, o Salmo 139 esclarece que devemos nossa existência ao Senhor, que somos criaturas dele. Nosso Pai celeste tinha conhecimento de nós mesmo antes que nossa mãe se desse conta da sua gravidez, ele acompanhou nosso desenvolvimento no seio materno e estava presente quando nascemos. O Deus do céu e da terra nos desejou e ansiava pelo nosso nascimento. Este fato é suficiente para a nossa existência!

Mas há mais! Desde que nasceu, o Criador ansiava pelo dia em que você depositaria sua vida em suas mãos. Quem faz pessoalmente uma aliança com Jesus, torna-se filho de Deus e recebe o direito a uma vida plena (Jo 1.12). Na verdade, nosso Pai celeste introduziu e acompanhou nosso nascimento para esta nova vida. Ele quer que conheçamos seu coração de Pai profundamente. É preciso que nossa identidade como filhos seu fique profundamente ancorada em nossa consciência, tal como a convicção de sermos amados por ele em toda e qualquer situação.

Ao falar sobre isso em outra ocasião, fui procurado por uma mulher. Ela chorava enquanto dizia: “Pastor, essa mensagem mexeu muito comigo. Quando minha mãe se engravidou de mim, meu pai ficou muito revoltado. Ele não queria ter filhos. Daquele dia em diante ele violentava minha mãe diariamente. Num certo dia, quando ela estava com 7 meses de gestação, ele chegou em casa transtornado. Bateu nela e chutou violentamente sua barriga. Os vizinhos a socorreram e naquele dia eu nasci com hematomas por todo o corpo, mas minha mãe não teve a mesma sorte, ela morreu na sala de cirurgia. Assim que recebi alta, meu pai colocou-me em um cestinho e deixou sobre o asfalto quente de uma rodovia, na esperança de que um carro passasse e me matasse.” E entre soluços concluiu: “Hoje eu entendi que o pai humano que tive, por não conhecer a Deus, não conseguiu transmitir o amor que o meu Pai Celeste sentia por mim mesmo antes do meu nascimento. Por isso, eu o perdôo”.

CONCLUSÃO

Jesus tinha sua identidade fundamentada no fato de ser ele o Filho de Deus, não somente Filho, mas Filho amado! Deus diz isso também aos seus filhos na terra. Somos preciosos aos seus olhos. Além dessa identidade, nossa condição de filhos nos proporciona a mais profunda oportunidade que alguém possa desejar. A oportunidade de sermos canais deste amor na vida de todos aqueles que nos cercam. Por isso, uma vez que sua identidade está solidificada em Deus, você é convidado por ele a deixar sua luz brilhar na vida de muita gente, afinal de contas, você nasceu para brilhar.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Vida e obra de Jesus: Modelo para a Igreja


A intenção de Jesus era que sua vida e obra se tornasse modelo para compreensão da igreja sobre o seu papel no mundo. Desta forma, gostaria de sugerir três características básicas do ministério de Jesus, as quais devem moldar a vida e a missão da comunidade que se diz enviada ao mundo por Ele.



No princípio do evangelho de João encontramos uma das mais impressionantes declarações de toda a Bíblia: “o Verbo se tornou carne e habitou entre nós”. (Jo 1.14). Em outras palavras, o Deus missionário se tornou um dentre nós (Mt 1.22-23).

Deus se fez homem, nasceu numa pequena vila chamada Belém, foi criado dentro dos valores culturais judaicos por uma família de Nazaré, mais tarde andou pelas ruas empoeiradas das vilas e povoados da Palestina, esteve cercado por pessoas dos mais variados tipos, encontrou espaço para ouvi-los, participou de suas festividades populares e religiosas e compartilhou de suas dores e sofrimentos. O Deus encarnado estava sempre lá, se envolvendo com a história daqueles que o cercavam. Por não evitar as pessoas, as situações e os lugares, Ele sabia como anunciar sua mensagem e como agir de forma que suas palavras e suas ações fizessem sentido aos corações de seus contemporâneos.

O texto de Fp 2.5-8 desafia a igreja a pensar na encarnação de Jesus como um modelo a ser imitado. Através de sua encarnação, Jesus renuncia seu status de “ser igual a Deus”. Como conseqüência direta desta renúncia, Jesus abre mão de sua imunidade expondo-se a tentações, limitações físicas, desgastes emocionais, dificuldades financeiras, decepções, dores, entre outras coisas. Renunciando a estas coisas Jesus escolheu ser entre nós aquele que serve e não o que é servido (Lc 22.27). Ele decidiu identificar-se com homens e mulheres em suas necessidades visando oferecer-lhes o caminho divino. Encarnação fala de aproximação do mundo e das pessoas, do seu cheiro e de seu gosto, de sua dor e de seu sofrimento. Foi este o modelo deixado por Jesus para nós como igreja. Ele não sobrevoou o mundo dos homens, ele viveu entre nós. Ele não sentiu o cheiro deste mundo, ele teve este cheiro. Ele não presenciou nossa dor, ele a sentiu (e como sentiu!).

Sei que tal proximidade e identificação da igreja com os homens e mulheres gera em muitos certa preocupação. O medo destes é de que ao aproximar-se do mundo dos homens e mulheres que lhe cercam, a igreja acabe por perder sua própria identidade. É bom lembrarmos que Jesus, em sua tarefa, envolveu-se com os pecadores, não com seu pecado. A igreja, em sua história, muitas vezes participou dos pecados dos pecadores (orgulho, egoísmo, cobiça), afastando-se, porém, dos pecadores. Assim como Cristo aproximou-se de nós, tomando nossa forma, a fim de nos reconciliar com o Pai, nós como igreja devemos nos aproximar do mundo que nos cerca, identificando-nos com os homens e mulheres que nele vivem, com o propósito de fazermos diferença em suas vidas.



De acordo com o evangelista Marcos, Jesus inicia seu ministério afirmando: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15). Desta forma, a proclamação verbal do reino torna-se uma marca essencial e um valor inegociável na missão de Jesus. Desde o início de seu ministério encontramos a afirmação “Daí por diante passou Jesus a pregar…” (Mt 4.17). Mais tarde, ele envia seus discípulos ordenando “pregai que está próximo o reino dos céus” (Mt 10.7).

Por um lado, o anúncio verbal do reino de Deus é feito como boas novas. Jesus descreve o reino como um tesouro de valor inestimável diante do qual tudo o que um homem possui se torna dispensável (Mt 13.44). Por outro lado, o anúncio verbal do reino em Jesus está associado à ênfase de que aqueles que abraçam estas boas novas não estão somente debaixo dos benefícios do reino, mas também debaixo do chamado para o arrependimento e para a obediência. Isto implica na reorientação completa da vida à luz das prioridades e valores do reino. De acordo com Jesus, se alguém quer segui-lo “a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz” (Lc 9.23).

Como Igreja precisamos nos posicionar com humildade diante das injustiças, mentiras e cultura pecaminosa de nossos dias sem, contudo, nos esquecer de apresentar sinais do reino em nosso estilo de vida. Se em Romanos 14.17 encontramos que o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo, onde estão os cristãos engajados na luta pela justiça em nossa cidade? Onde estão os cristãos defensores e mobilizadores da paz em nossos bairros violentos? Onde estão os cristãos promotores de uma alegria real na vida das tão sofridas famílias de nossas ruas?

Como Igreja precisamos renovar nosso compromisso com o anúncio verbal do Reino e com a manifestação do Reino em toda sua inteireza, a fim de que o crescimento do Reino em nossa cidade seja percebido não só nas estatísticas do IBGE, mas na vida daqueles que se dizem cidadãos do Reino e das Igrejas que chamam Jesus por Senhor, nas mais diferentes esferas e frentes de nossa sociedade.


De acordo com os relatos do Novo Testamento, a missão de Jesus sempre se encontra intimamente relacionada à presença e ação do Espírito Santo de Deus. Foi pelo Espírito Santo que Jesus: 1) foi concebido (Mt 1.18); 2) foi confirmado como filho de Deus (Mt 3.16-17); 3) foi guiado para o deserto para ser tentado (Mt 4.1); 4) revelou os segredos do reino (Mt 16.17) e 5) foi levantado dentre os mortos (Rm 8.11). Portanto, não podemos falar acerca da missão de Jesus sem falar da presença e do ministério do Espírito Santo.

Em suas últimas palavras (At 1.8) Jesus promete o Espírito que haveria de capacitar e impulsionar a Igreja no exercício da missão. Foi sob a ação do Espírito que: 1) os discípulos anunciaram o evangelho em Jerusalém (At 2.4,14); 2) em Samaria (At 8.5,14-17); 3) Felipe deixou Samaria para evangelizar no deserto (At 8); 4) Pedro foi ao encontro de Cornélio (At 10); Paulo e Barnabé foram separados e enviados na primeira missão oficial entre os gentios (At 13.1,2). As viagens missionárias foram conduzidas (At 16.7).

Com base nessa verdade precisamos reconhecer que a missão, muito antes de tarefa da igreja, é obra de nosso próprio Deus no mundo. Parece-me então que a confiança no Espírito Santo como capacitador e articulador da missão deve nos levar como Igreja a um constante espírito de humildade e questionamento interior: A motivação final das atividades que realizamos é a missão de Deus? Diante dos projetos para crescimento da Igreja temos nos deixado tomar pelo excesso de confiança em nós mesmos? Em meio a muitas atividades, perdemos de vista o fato de que a obra não é nossa, mas de Deus? Nossa eficiência demonstrada em números é sempre sinônimo de fidelidade à voz do Espírito?

O desafio aqui lançado não pode ser confundido com um simples “não ter programas”, “não ter estratégias”, ou mesmo “não estabelecer metas”. Muito pelo contrário. Vemos o apóstolo Paulo planejando sua ação missionária com destino a Roma e estabelecendo igrejas de forma estratégica no mundo de então. No entanto, o perigo está em confundirmos os mecanismos de análise de eficiência das técnicas e estratégias gerenciais com a avaliação de fidelidade diante da missão dada por Deus.

No ministério de Jesus, muitas vezes diante de multidões, o Espírito direciona a atenção de Jesus a um marginalizado à beira do caminho com o qual os líderes das massas não queriam qualquer associação pelos prejuízos com a imagem (João 9). No desenvolvimento da igreja em Atos dos Apóstolos, o mesmo Espírito que direciona os esforços dos discípulos para Samaria e faz ali uma tremenda obra, numericamente falando, conduz Filipe para um lugar deserto para evangelizar um só homem. Assim, a lógica do Espírito não é a mesma dos programas e estratégias gerenciais que usam como critério de medição a “eficiência”. O Espírito trata-nos a partir da “fidelidade”.